sexta-feira, 22 de maio de 2009

Em alguma contra-capa

(GO, Nick Farewell)

"Encontro a Ginger na porta do cinema. Acho que estou condicionado a sorrir toda vez que a vejo. A minha boca reage instantaneamente. (...) A garota dos meus sonhos existe e está vindo ao meu encontro. Se eu fosse cineasta, colocaria a câmera bem onde eu estou. Assim, eu a veria, em câmera subjetiva, descer a rua apressada entre passos alternados, a sua bolsa balançando, sua mão se agitando, harmoniosamente, e o exato momento em que leva a mão para jogar o cabelo por trás da orelha. Em seguida, ela me enxergaria, sorriria e apertaria mais o passo. Só cortaria quando ela entrase em close, exatos dois segundos antes de me beijar.
- Demorei?
- Posso pedir uma coisa?
- O quê?
- Você porederia ir até a esquina e descer a rua de novo?
- Por quê?
- Porque eu quero resgistrar isso.
- Onde? Como?
- Na minha memória.
Ela sorri. É um festival de sorrisos.
- Ok. Vou lá, então.
- Não se esqueça que você está descendo pela primeira vez a rua - eu quase grito.
- Entendi - ela responde de costas.
Gui chega até a esquina. Faz pose e desce a rua como se estivesse atuando. Eu ligo a minha câmera imaginária. Registro todos os movimentos. Penso como vou me lembrar disso até o fim dos meus dias. Pensando como a lembrança ainda é a melhor das máquinas fotográficas. Agora, cinematograficamente, eu gravo frame por frame na minha memória, expondo a luz e meus sentimentos, e projeto na minha retina as imagens que eu voltarei sempre a enxergar toda vez que sentir um dia nublado entre a ausência e o encontro da pessoa que, possivelmente, vai me causar mais falta e mais completude, ao mesmo tempo, na minha vida."

OBS.: Comecei a ler este livro, e achei que esse trecho da contra-capa lhe agradaria. Achei tão... (suspiro)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

#01





Paris, je t'aime

Você entende, eu sei.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Nó (s)

(Clarisse Queiroz)

"Eu odeio. Eu a amo.
Nos últimos meses essa é a única certeza que possuo, resquícios de realidade. Sei que tenho apenas 14 anos, mas acho que encontrei o amor da minha vida. Sim, bem piegas, Mas não pensem que sou romântico. Sou concreto. A vislumbro. Um olho, um cabelo, pés, pêlo, pele. Alimento essa distância, dolorosa, porém segura, útero materno. Esse amor calado, tímido, meu. Cresce a cada dia, se alimenta de desilusão. Coragem me falta. Visualizo futuro, presente e passado e, em meus devaneios, o vivo. Visualizo apenas. Esse desejo me consome. Sinto-me desaparecer. Sou fraco, e me conformo. Apenas mais um patético conformado. Não me arrisco, fico com a certeza do vislumbramento, posto eterno."

- Vistes o livro que lhe recomendei?
- Sim.
- Gostastes?
- Muito.
- As suas respostas vagas me intrigam. É desinteresse ou mistério?
- Isso não posso te dizer, ficas com a incerteza então.
- Se a incerteza é a única coisa que me concedes, me prendo a ela, a devoro. Estou carente de ti.
- É que sou tímido. E fraco. Tenho medo da perda, por isso não me arrisco.

"Ele é mistério, incógnita.
Trocamos olhares frios, perdidos, angustiados, calorosos. Ele é todo incerto. Foi concebido pela dúvida e criado pela indisposição. Ele é todo errado, e isso me encanta. Sinto uma necessidade impassível de tê-lo, amá-lo e mostrá-lo. Mas sou fraca, tenho medo. E padeço. Vejo o tempo passar e me pergunto, "até quando?". Até quando seremos estranhos um para o outro? Nunca tivemos profundas divagações ou grandes diálogos, mas nos conhecemos. Pelo olhar, vi sua alma uma vez. Não esqueci, me prendi em suas cordilheiras. Não me arrisco, fico com a certeza do vislumbramento, posto eterno."

P. s.: Por favor, sem risadas. Foi escrito a cerca de dois anos atrás e nunca mostrado a ninguém.
Estréias sempre me assustam.
Me faz acreditar que existe, você sabe, aquilo.

História Interrompida

(Clarice Lispector)

Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso, dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o pêlo macio e quente de um gatinho, por isso é que sua vida se resumia num monte de cacos: uns brilhantes, outros baços, uns alegres, outros como um "pedaço de hora perdida", sem significação, uns vermelhos e completos, outros brancos, mas já espedaçados.
Eu, na verdade não sabia o que retrucar e lamentava não ter um gesto de reserva, como o seu, de alisar o cabelo, para sair da confusão. No entanto, para quem leu um pouco e pensou bastante nas noites de insônia, é relativamente fácil dizer qualquer coisa que pareça profunda. Eu lhe respondia que mesmo destruindo ele construía: pelo menos esse monte de cacos para onde olhar e de que falar. Perfeitamente absurdo. Ele, sem dúvida, também o achava, porque não respondia. Ficava muito triste, a olhar para o chão e a alisar seu gatinho morno.
Assim se passavam as horas. Às vezes eu mandava buscar uma xícara de café, que ele bebia com muito açúcar e gulosamente. E eu pensava um pensamento muito engraçado: é que se achasse que andava a destruir tudo, não teria tanto gosto em beber café e não pediria mais. Uma leve suspeita de que W... era um artista, vinha-me à mente. Para desculpá-lo, respondia-me: destrói-se tudo em torno de si, mas a si próprio e aos desejos (nós temos um corpo) não se consegue destruir. Pura desculpa.
Num dia de verão abri a janela de par em par. Pareceu-me que o jardim entrara na sala. Eu tinha vinte e dois anos e sentia a natureza em todas as fibras. Aquele dia estava lindo. Um sol mansinho, como se nascesse naquele instante, cobria as flores e a relva. Eram quatro horas da tarde. Ao redor o silêncio.
Voltei-me para dentro, amolecida pela calma daqueles momentos. Queria dizer-lhe:
- Parece-me que essa é a primeira das horas, mas que depois dela mais nenhuma se seguirá.
Mentalmente ouvi-o responder:
- Isso é apenas uma tendência sentimental indefinível, misturada à literatura da moda, muito subjetivista. Daí essa confusão de sentimentos, que não tem verdadeiramente um conteúdo próprio, a não ser o seu estado psicológico, muito comum em moças solteiras de sua idade...Tentei explicar-lhe, combatê-lo... Nenhum argumento. Voltei-me desolada, olhei seu rosto triste e ficamos calados.
Foi então que pensei aquela coisa terrível: "Ou eu o destruo ou ele me destruirá".
Era preciso evitar a todo custo que aquela tendência analista, que terminava pela redução do mundo a míseros elementos quantitativos, me atingisse. Precisava reagir. Queria ver se o cinzento de suas palavras conseguia embaçar meus vinte e dois anos e a clara tarde de verão. Decidi-me, disposta a começar no mesmo momento a lutar. Voltei-me para ele, apoiei as mãos no parapeito da janela, entrefechei os olhos e sibilei:
- Essa hora me parece a primeira das horas e também a última!
Silêncio. Lá fora, a brisa indiferente.
Ele ergueu os olhos para mim, levantou a mão sonolenta e acariciou os cabelos. Depois pôs-se a riscar com a unha os desenhos em xadrez da toalha de mesa.
Fechei os olhos, abandonei os braços ao longo do corpo. Meus lindos e luminosos vinte e dois anos... Mandei vir café e com muito açúcar.
Depois que nos separamos, no fim da estrada, voltei muito devagar para casa, mordendo um capim e chutando todos os seixos brancos do caminho. O sol já se tinha deitado e no céu sem cor já se viam as primeiras estrelas. Estava com preguiça de chegar em casa: invariavelmente o jantar, o longo serão vazio, um livro, o bordado e, enfim, a cama, o sono. Enveredei pelo atalho mais comprido.
A relva crescida era penugenta e quando o vento soprava forte ela me acariciava as pernas.
Mas eu estava inquieta.
Ele era moreno e triste. E sempre andava de escuro. Oh, sem dúvida eu gostava dele. Eu, muito branca e alegre, ao seu lado. Eu, numa roupa florida, cortando rosas, e ele de escuro, não, de branco, lendo um livro.
Sim, nós formávamos um belo par.
Achei-me fútil, assim, imaginando quadros. Mas justifiquei-me: precisamos contentar a natureza, enfeitá-la. Pois eu jamais plantaria jasmim junto de girassóis, como ousaria... Bem, bem, o que precisava era de resolver "meu caso".
Durante dois dias pensei sem cessar. Queria achar uma fórmula que mo desse para mim. Queria achar a fórmula que pudesse salvá-lo. Sim, salvá-lo. E essa idéia me era agradável porque justificaria os meios que empregasse para prendê-lo. Tudo me parecia porém estéril. Ele era um homem difícil, distante, e o pior é que falava francamente de seus pontos fracos: por onde atacá-lo então, se ele se conhecia?
O nascimento de uma idéia é precedido por uma longa gestação, por um processo inconsciente para o gestante. Assim explico a minha falta de apetite no jantar magnífico, minha insônia agitada numa cama de lençóis frescos, após um dia atarefado. Às duas horas da madrugada, enfim, nasceu ela, a idéia.
Sentei-me alvoroçada na cama, pensei: veio depressa demais para ser boa; não se entusiasme; deite-se, feche os olhos e espere que venha a serenidade. Levantei-me porém e, descalça para não acordar Mira, pus-me a andar pelo quarto, como um homem de negócios à espera do resultado da Bolsa. Porém cada vez mais parecia-me que achara a solução.
Com efeito, homens como W... passam a vida à procura da verdade, entram pelos labirintos mais estreitos, ceifam e destroem metade do mundo sob o pretexto de que cortam os erros, mas quando a verdade lhes surge diante dos olhos é sempre inopinadamente. Talvez porque tenham tomado amor à pesquisa, por si mesma, e se tornem como o avarento que acumula, acumula apenas, esquecido da primitiva finalidade pela qual começou a acumular. O fato é que com W... eu só conseguiria qualquer coisa pondo-o em estado de "shock".
E eis como. Dir-lhe-ia (com o vestido azul que me fazia muito mais loura), a voz suave e firme, fixando-o nos olhos:
- Tenho pensado muito a nosso respeito e resolvi que só nos resta...
Não. Simplesmente, - Vamos nos casar?
Não, não. Nada de perguntas.
- W..., nós vamos casar.
Sim, eu conhecia os homens. E sobretudo conhecia-o fundamente. Ele não teria o recurso do gesto preferido. E permaneceria estático, atônito. Porque estaria diante da Verdade... Ele gostava de mim e talvez porque só a mim não conseguira destruir com suas análises (eu tinha vinte e dois anos).
Não consegui dormir durante o resto da noite. Estava tão desperta que o ressonar de Mira me enervava, e até a lua, muito redonda, cortada ao meio por um galho de folhas finas, parecia-me defeituosa, com uma inchação do lado excessivamente artificial. Queria abrir a luz, mas ouvia de antemão as queixas de Mira a mamãe, no dia seguinte.
Levantei-me com a disposição de uma mocinha no dia do seu casamento. Cada to meu era preparatório, cheio de finalidades, como parte de um ritual. Passei a manhã muito agitada, pensando na decoração do ambiente, na roupa, nas flores, frases e diálogos. Depois disso, como arranjar a voz suave e firme, serena e meiga? A continuar naquela febre, eu correria o riso de receber W... com gritos nervosos: "W... vamos casar imediatamente, imediatamente". Peguei numa folha de papel e enchi-a de alto a baixo: "Eternidade. Vida. Mundo. Deus. Eternidade. Vida. Mundo. Deus. Eternidade..." Essas palavras matavam o sentido de muitos de meus sentimentos e deixavam-me fria por umas semanas, tão minúscula eu me descobria.
Mas na verdade eu não queria ficar fria: desejava viver o momento até esgotá-lo. Precisava apenas conquistar um rosto menos afogueado. Sentei-me para uma longa costura.
A serenidade foi pouco a pouco voltando. E com ela, uma profunda e emocionante certeza de amor. Mas pensei, não existe mesmo nada, nada por que eu troque os instantes que vêm! Só duas ou três vezes na vida experimenta-se tal sensação e as palavras esperança, felicidade, saudade, a ela se ligam, descobri. E fechava os olhos e imaginava-o tão vivo que sua presença se tornava quase real: "sentia" suas mãos sobre as minhas e uma ligeira tontura me atordoava. ("Oh, meu Deus, me perdoe, mas a culpa é do verão, a culpa é de ele ser tão bonito e moreno e eu tão loura!").
A idéia de que eu estava sendo feliz me enchia tanto que eu precisava fazer alguma coisa, alguma bondade, para não ficar com remorsos. E se eu desse a golinha de renda a Mira? Sim, o que é uma golinha de renda, embora bonita, diante de... "Eternidade. Vida. Mundo...Amor"?
Mira tem quatorze anos e é muito exagerada, quando entrou esbaforida no quarto e fechou a porta atrás de si, com grandes gesto, eu disse:
- Beba um copo d'água e depois conta como a gata teve trinta gatinhos e dois cachorrinhos pretos.
- Clarinha disse que ele se matou! Se matou com um tiro na cabeça... É verdade, é? É mentira, não é?
E repentinamente a história se partiu. Nem teve ao menos um fim suave. Terminou com a brusquidão e a falta de lógica de uma bofetada em pleno rosto. Estou casada e tenho um filho. Não lhe dei o nome de W... E não costumo olhar para trás: tenho em mente ainda o castigo que Deus deu à mulher de Loth. E só escrevi "isso" para ver se conseguia achar uma resposta a perguntas que me torturam, de quando em quando, perturbando minha paz: que sentido teve a passagem de W... pelo mundo? Que sentido teve a minha dor? Qual o fio que liga esses fatos a... "Eternidade. Vida. Mundo. Deus."?

Florbela Espanca

Dize-me, amor, como te sou querida.

Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,
Agonia sem fé dum moribundo.

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!



Eu.

Até agora eu não me conhecia,
Julgava que era eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como a vida.

Mas que eu não era eu não o sabia
E, mesmo que o soubera, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... E não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca! -
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma.


terça-feira, 28 de abril de 2009

Doce Certeza

(Florbela Espanca)

Por essa vida fora hás-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânisa louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d'ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d'ouro e risos de mulher,
Muito beijo d'amor apaixonado,
E então te lembrarás de mim sequer!...

Hás de tecer uns sonhos delicados...
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!...

Mas nunca encontrarás p'la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d'amor que são meus versos!...

segunda-feira, 27 de abril de 2009